Destruição desenfreada das Florestas “poderá desencadear mais pandemias”

Pesquisadores dizem que a perda da Biodiversidade permite a rápida disseminação de novas doenças de animais para humanos

Os cientistas alertam aos líderes mundiais que um número crescente de novas pandemias mortais afligirá o Planeta se os níveis de desmatamento e perda da biodiversidade continuarem em seus atuais índices catastróficos.

Uma cúpula da ONU sobre biodiversidade, formada por Conservacionistas e Biólogos debateram que há evidências claras de uma forte ligação entre a destruição ambiental e o aumento do surgimento de novas doenças mortais como a Covid-19.

O desmatamento desenfreado, a expansão descontrolada da agricultura e a construção de minas em regiões remotas – bem como a exploração de animais selvagens como fontes de alimento, medicamentos tradicionais e animais de estimação exóticos – estão criando uma “tempestade perfeita” para o contágio de doenças da vida selvagem para pessoas.


APA do Morro do Silvério em chamas, após um incêndio criminoso, em Julho de 2020. A Área de Proteção Ambiental é um dos últimos remanescentes de Pau-Brasil da Cidade do Rio de Janeiro e abriga diversas espécies de animais ainda não estudados.

Quase um terço de todas as doenças emergentes teve origem no processo de mudança do uso da terra, afirma. Como resultado, cinco ou seis novas epidemias por ano podem em breve afetar a população da Terra.

“Agora há uma série de atividades – extração ilegal de madeira, desmatamento e mineração – com comércio internacional associado de carne de animais selvagens e animais de estimação exóticos que criaram essa crise”, disse Stuart Pimm, professor de conservação da Universidade Duke. “No caso da Covid-19, ela custou ao mundo trilhões de dólares e já matou quase um milhão de pessoas, então uma ação claramente urgente é necessária.”

Estima-se que dezenas de milhões de hectares de Floresta Tropical e outros ambientes selvagens estão sendo derrubados todos os anos para cultivar palmeiras, criar gado, extrair petróleo e fornecer acesso a minas e depósitos minerais. Isso leva à destruição generalizada da vegetação e da vida selvagem que hospeda inúmeras espécies de vírus e bactérias, a maioria desconhecida para a ciência. Esses micróbios podem infectar acidentalmente novos hospedeiros, como humanos e animais domésticos.


Criação de gado em larga escala é altamente prejudicial ao equilíbrio ambiental. Pois demanda muito espaço, ocasionando o desmatamento desenfreado e afetando a biodiversidade local.

Esses eventos são conhecidos como “spillovers”. Crucialmente, se os vírus prosperarem em seus novos hospedeiros humanos, eles podem infectar outros indivíduos. Isso é conhecido como transmissão e o resultado pode ser uma doença nova e emergente.

Um exemplo de tais eventos é fornecido pelo vírus HIV, que no início do século 20 se espalhou de chimpanzés e gorilas – que estavam sendo massacrados para a carne de caça na África Ocidental – para homens e mulheres e que desde então causou a morte de mais de 10 milhões pessoas. Outros exemplos incluem a febre Ebola, que é transmitida por morcegos a primatas e humanos; a epidemia de gripe suína de 2009 e o vírus Covid-19, que foi originalmente transmitido aos humanos por morcegos.

“Quando os trabalhadores vêm às florestas para derrubar árvores, eles não levam comida com eles”, disse Andy Dobson, professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Princeton. “Eles só comem o que podem matar. Isso os expõe à infecção o tempo todo.”

Este ponto foi apoiado por Pimm. “Tenho a fotografia de um sujeito matando um porco selvagem nas profundezas da selva equatoriana. Ele era um madeireiro ilegal e ele e seus colegas de trabalho precisavam de comida, então mataram um javali. Eles ficaram salpicados de sangue de porco selvagem no processo. É horrível e anti-higiênico e é assim que essas doenças se espalham.”

No entanto, nem toda doença emergente é causada por um único e importante evento de transbordamento, enfatizou o zoólogo David Redding, da University College London. “Nos locais onde as árvores estão sendo derrubadas, aparecem na paisagem mosaicos de campos, formados ao redor de fazendas, intercalados com parcelas de mata antiga.”

“Isso aumenta a interferência entre o selvagem e o cultivado. Morcegos, roedores e outras pragas portadoras de novos vírus estranhos vêm de aglomerados de florestas nativas e infectam animais de fazenda – que então transmitem essas infecções aos humanos.”

Um exemplo dessa forma de transmissão é fornecido pela febre de Lassa, que foi descoberta pela primeira vez na Nigéria em 1969 e agora causa vários milhares de mortes por ano. O vírus é espalhado pelo roedor Mastomys natalensis , que era comum nas savanas e florestas da África, mas agora coloniza casas e fazendas, transmitindo a doença aos humanos.

“O ponto crucial é que provavelmente existem 10 vezes mais espécies diferentes de vírus do que de mamíferos”, acrescentou Dobson. “Os números estão contra nós e o surgimento de novos patógenos são inevitáveis.”

No passado, muitos surtos de doenças permaneceram em áreas contidas. No entanto, o desenvolvimento de viagens aéreas baratas mudou essa imagem e as doenças podem aparecer em todo o mundo antes que os cientistas percebam completamente o que está acontecendo.

“A transmissão progressiva de uma nova doença também é outro elemento realmente importante na história da pandemia”, disse o professor James Wood, chefe de medicina veterinária da Universidade de Cambridge. “Considere a pandemia de gripe suína. Nós voamos ao redor do mundo várias vezes antes de perceber o que estava acontecendo. A conectividade global permitiu – e ainda permite – que o Covid-19 fosse transmitido para quase todos os países do planeta.”

Em um artigo publicado na Science no mês passado, Pimm, Dobson e outros cientistas e economistas propõem a criação de um programa para monitorar a vida selvagem, reduzir spillovers, acabar com o comércio de carne de animais selvagens e reduzir o desmatamento. Esse esquema poderia custar mais de US $ 20 bilhões por ano, um preço que é superado pelo custo da pandemia Covid-19, que enxugou trilhões de dólares de economias nacionais em todo o mundo.

“Estimamos que o valor dos custos de prevenção por 10 anos seja apenas cerca de 2% dos custos da pandemia Covid-19”, afirmam. Além disso, a redução do desmatamento – importante fonte de emissão de carbono – também teria o benefício de auxiliar no combate às mudanças climáticas, acrescentam os pesquisadores.

“A taxa de surgimento de novas doenças está aumentando e seus impactos econômicos também estão aumentando”, afirma o grupo. “O adiamento de uma estratégia global para reduzir o risco de pandemia levaria ao aumento contínuo dos custos. A sociedade deve se esforçar para evitar os impactos de futuras pandemias.”

Fonte: https://www.theguardian.com/environment/2020/aug/30/rampant-destruction-of-forests-will-unleash-more-pandemics?fbclid=IwAR2fU-OgtkHw8ToFy6csw7KXMdjjunKfukcJ0WifwcAUc0ug7tT7vPprDLA



A Floresta Ombrófila Densa e intocada da Reserva Biológica do Tinguá – ICMBio.

VISÃO DOS NOSSOS COORDENADORES

A Floresta Fechada é como um escudo para que comunidades externas não entrem em contato com animais que são hospedeiros de micro-organismos que causam doenças. E quando a gente fragmenta a Floresta, começa a fazer vias de entrada no seu seio, isso é uma bomba-relógio.

O entra e sai da Floresta fragmentada para tirar madeira, colocar gado, abrir garimpo, caçar e retirada de água potável, também é apontado como um perigo para a saúde. As pessoas que entram nessas áreas podem ter contato com esses vírus e levar dentro delas o problema para centros urbanos.

“Quando esses vírus chegam às cidades, a disseminação é muito rápida, justamente por toda a facilidade de deslocamento nesses centros, possibilitando o deslocamento internacional. As cidades repetem o mesmo estilo de confinamento que a gente faz com os animais e são gatilhos para proliferação de doenças contagiosas.

Em um nível da Floresta intocada, descobrimos, marcações nas árvores feitas com facão. Normalmente são marcações de Caçadores. O ICMBio e a Gestão da Reserva Biológica do Tinguá, ficaram cientes das marcações de trilha ilegal.


O DESMATAMENTO CONTRIBUIU PARA A PROPAGAÇÃO DO ZIKA?

Estão crescendo as evidências de que o desmatamento causa surtos de doenças ao mudar o comportamento dos portadores de animais.

Por décadas, quando cientistas e pesquisadores se concentraram em pandemias, eles procuraram vacinas e medicamentos. O mistério do que fez com que os patógenos zoonóticos passassem dos animais para os humanos atraiu pouca atenção.

“A ideia era que algo fundamental está acontecendo nesta era que está causando todas essas pandemias”, disse Peter Daszak, que estudou a vida selvagem e as doenças humanas por mais de duas décadas, “mas ninguém estava reunindo tudo isso.”

Agora, uma série de estudos, baseados em pesquisas nas últimas duas décadas, fornece evidências crescentes de que a perda de florestas cria as condições para que uma ampla gama de doenças mortais passem dos animais para os humanos.


Um casal Kiwcha entra na Floresta para cortar madeira em Coca, Equador. (Thomas Munita para Centro de Pesquisa Florestal Internacional CIFOR CCBYNC)

“A mudança fundamental é o que estamos fazendo ao planeta”, diz ele. “Não estamos apenas causando poluição global, mudança climática e tudo o mais, mas também o surgimento e a disseminação de todos esses novos patógenos.”

Daszak, presidente da Ecohealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos focada na interseção entre conservação e saúde global, diz que recentemente concluiu uma reanálise de mais de 500 surtos de doenças nas últimas quatro décadas, um estudo que ele e outros originaram publicado na Nature em 2008.

“A mudança no uso da terra está surgindo como um fator significativo de eventos de doenças, principalmente de vida selvagem”, diz ele. “Este é um alerta. O desmatamento e a conversão de terras para a agricultura são um dos maiores impulsionadores de pandemias. Precisamos resolver o caso rapidamente.”

O desmatamento pode aumentar a prevalência de doenças, incluindo malária, dengue, SARS, Ebola, esquistossomose, leptospirose (uma doença bacteriana que pode levar à meningite e insuficiência hepática), leishmaniose (que causa lesões de pele) e outras, porque muda como e onde vivem os animais que transmitem essas doenças ao homem.

“Todas essas doenças são animais selvagens, mas muitas delas são causadas por mudanças no uso da terra”, diz Daszak. “É tudo uma questão de contato humano com reservatórios de alto risco – primatas, morcegos, roedores.”

Ao longo da história, as doenças passaram das Florestas aos humanos por meio de portadores animais. Mas a crescente proximidade de humanos com áreas recentemente desmatadas aumenta o risco.


Favela da Rocinha e o bairro nobre de São Conrado na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro são uma prova viva de que o desmatamento e o crescimento desordenado contribuem em alguma parte para a proliferação de doenças zoonóticas.

No final da década de 1990, uma pesquisa sobre Desmatamento e Malária na Amazônia Peruana por Amy Vittor, agora professora assistente de Medicina na Universidade da Flórida, deu o alarme pela primeira vez.

O desmatamento de Florestas para a agricultura aumenta a exposição à luz solar e frequentemente interrompe pequenos riachos, criando piscinas de água quente perfeitas para a reprodução do mosquito.

Eventualmente, a agricultura se torna insustentável à medida que a terra se torna infértil e as pessoas partem, abandonando a terra para lugares mais baixos, também propícios à reprodução de mosquitos.    

Pesquisas de Vittor e outros mostram que as espécies portadoras da malária em uma área desmatada do Peru morrem 278 vezes mais do que as mesmas espécies em uma floresta intocada.

Em uma região, depois que uma estrada foi construída em uma floresta virgem e as pessoas começaram a limpar a terra para a agricultura, os casos de malária aumentaram de 600 para 120.000 por ano. 

Mesmo pequenas diminuições na cobertura florestal aumentam a exposição à malária. O corte de 4% de uma floresta no Brasil, de acordo com um estudo de 2010, foi associado a um aumento de quase 50% nos casos de malária humana.


Amazônia em chamas. (GoogleImagens / Internet)

O vírus Zika, causa dos defeitos congênitos no Brasil, é outro exemplo. Surgiu em mosquitos na Floresta de Zika de Uganda na década de 1940, mas houve poucos casos humanos até 2007. O Aedes aegypti, a espécie de mosquito que carrega o Zika e muitas outras doenças, se espalhou primeiro para a Ásia, onde provavelmente sofreu uma mutação, depois ganhou uma posição na Amazônia brasileira, graças às viagens globais. Lá, os mosquitos transmissores da doença floresceram no calor de lugares como Recife, um hotspot do Zika e uma cidade que teve seus três meses mais quentes já registrados no final do ano passado. 

O desmatamento lá contribuiu para uma seca recorde no Brasil, o que leva a mais pessoas armazenando água em recipientes abertos. Isso leva a um aumento na população de mosquitos. Também, quando as temperaturas sobem, os mosquitos precisam de mais sangue, por isso se alimentam com mais frequência e se reproduzem mais rápido. 


Mosquitos são grandes transmissores de doenças, muitas delas graves e mortais. O desmatamento das florestas esta contribuindo e acelerando a invasão dos mosquitos em nossas cidades.

Os mosquitos são apenas um vetor de transmissão de doenças cujo alcance e hábitos são afetados pelo desmatamento. Primatas, caracóis, morcegos e roedores também carregam a morte e o desmatamento os coloca cada vez mais em contato com humanos.

Um estudo publicado constatou um aumento dramático nos casos de malária em Bornéu da Malásia após o rápido desmatamento para a criação de plantações de óleo de palma.

Os pesquisadores determinaram que os macacos, primatas que carregam uma forma de Malária, foram forçados a se concentrar nos fragmentos florestais remanescentes, possivelmente aumentando a doença em suas populações. Conforme as pessoas se mudavam para trabalhar nas plantações ao longo da orla da floresta, eram vítimas de mosquitos que prosperavam naquele novo habitat que transferia a doença de primata para humano. 

A evidência de que a mudança no uso da terra leva a doenças emergentes mortais cresce a cada novo estudo.

Os Caramujos que carregam platelmintos que causam a esquistossomose prosperam em áreas abertas e quentes criadas pelo desmatamento. Um estudo da Comissão Lancet de 2015 concluiu que há evidências “circunstanciais” de que as mudanças no uso da terra aumentaram a probabilidade de surtos de Ebola. A prevalência do Hantavírus, que pode ter uma taxa de mortalidade de até 30%, aumentou nas populações de roedores em áreas do Panamá afetadas pela atividade humana.

O vírus Nipah, uma doença neurológica sem cura conhecida, surgiu no final da década de 1990 na Malásia após a destruição e queima para criar fazendas de porcos. Os morcegos comiam frutas em pomares próximos. Os porcos comiam as mangas nesses pomares e o vírus invadiu os humanos. No surto inicial, 257 pessoas foram infectadas, matando 105.

Peter Hotez, Reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical do Baylor College of Medicine, diz que o problema é complicado. O tempo, as mudanças climáticas, a interação humana e o comportamento dos hospedeiros animais contribuem para a propagação de uma doença. Para resolver o problema, serão necessárias colaborações entre cientistas ambientais, zoólogos mamíferos, biólogos vetoriais, cientistas sociais, matemáticos e modeladores“Estamos percebendo que os problemas estão se tornando cada vez mais complexos e nenhum campo será capaz de resolvê-los”, diz ele.


Morcego aproveita a água doce do bebedouro dos beija-flores!!!

Vittor, que começou a estudar o desmatamento e a malária no Peru em 1998, adverte contra fazer generalizações. Há uma espécie de mosquito na África, por exemplo, que prospera na floresta. “Cada mosquito da Malária se comporta de maneira diferente, tem hábitos de reprodução diferentes e é adaptável”, diz ela. As evidências sugerem que outros fatores, incluindo a estrutura da casa, saneamento e acesso regular a água potável, também têm efeito nas taxas de malária. 

“Essas doenças são produto do rápido desenvolvimento econômico desses países tropicais”, diz Daszak. “Se pudermos gerenciar esse desenvolvimento, colocar em prática estruturas para garantir que estamos prontos para surtos, estaremos à frente da curva. Sabemos onde estão as populações de maior risco.”

Fonte: https://www.smithsonianmag.com/science-nature/did-deforestation-contribute-zikas-spread-180959305/


Capa: Taylor Callery

Fotos internas: Yuri Borba

Pesquisa de Campo / Textos e Redação / Estudo: Yuri Borba

Nosso Coordenador, o Fotógrafo da Vida Selvagem Yuri Borba, descobriu uma grande Figueira que abriga uma família de Morcegos na Reserva Biológica do Tinguá – ICMBio.

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