Se não cuidar, ela pode acabar – A Água é um recurso natural esgotável

No dia 22 de março, é comemorado o Dia Mundial da Água. Se hoje os países lutam por petróleo, não está longe o dia em que a água será devidamente reconhecida como o bem mais precioso da humanidade.

A água doce utilizada pelo homem vem das represas, rios, lagos, açudes, poços, reservas subterrâneas e em certos casos do mar (após um processo chamado dessalinização). A água para o consumo é armazenada em reservatórios de distribuição e depois enviada para grandes tanques e caixas d’água de casas e edifícios. Após o uso, a água deveria seguir pela rede de captação de esgotos. Antes de voltar à natureza, ela deveria ser tratada para evitar a contaminação de rios e reservatórios, mas isso não é o caso em grande parte dos países do mundo. No Brasil, ainda não chega a ser 40%.

Estudos sobre o sistema hídrico mundial são unânimes em indicar que, se a média de consumo global de água não diminuir no curto prazo, teremos problemas de escassez. O Brasil, que tem uma parcela significativa de água doce, também está ameaçado.

Você acorda de manhã, acende a luz, toma um banho quente e prepara o café. Após se alimentar, limpa a boca com um guardanapo e lava a louça. Vai ao banheiro, escova os dentes e está pronto para dirigir até a escola para mais um dia de trabalho.

Se parar para pensar, vai ver que, para realizar todas essas atividades, foi preciso usar água. A energia vinda das quedas d’água (via hidrelétricas) é que faz lâmpadas acenderem, chuveiros aquecerem e geladeiras refrigerarem. E para produzir o guardanapo que você passou pela boca é necessária muita água. Sem esquecer que o combustível de seu carro também contém a substância.

O Rio Boa Esperança, dentro da Reserva Biológica do Tinguá – ICMBio, correndo tranquilo nas partes baixas da Reserva.

“Bilhões não têm acesso a água e sabão”, diz UNO

Segundo os dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 2 em cada 5 pessoas em todo o mundo não têm instalações básicas para se lavar as mãos, de acordo com os dados mais recentes.

Conforme o Unicef, 40% da população mundial, ou 3 bilhões de pessoas, não têm lavatório com água e sabão em casa e quase três quartos das pessoas nos países menos desenvolvidos não têm instalações básicas para lavar as mãos em casa.

O Unicef afirma ainda que 47% das escolas, que abrigam 900 milhões de crianças em idade escolar, não têm um lavatório adequado.

Nos estabelecimentos de saúde de todo o mundo, 16% não tinham banheiros funcionais ou instalações para lavar as mãos nos pontos de atendimento onde os pacientes são tratados.

“Lavar as mãos com sabão é uma das coisas mais baratas e eficazes que você pode fazer para proteger você mesmo e os outros contra muitas outras doenças infecciosas. No entanto, para bilhões, mesmo as medidas mais básicas estão simplesmente fora de alcance”, disse Sanjay Wijesekera, diretor de Programas do Unicef.

O fundo apresentou ainda outros dados que mostram a precariedade dos serviços de saneamento básico em todo o mundo. Na África ao sul do Saara, 63% da população nas áreas urbanas, ou 258 milhões de pessoas, não têm acesso à lavagem das mãos. Na Ásia Central e Meridional, 22% da população nas áreas urbanas, ou 153 milhões de pessoas, não têm acesso à lavagem das mãos; quase 50% dos bengaleses urbanos, 29 milhões de pessoas, 20% dos indianos urbanos, ou 91 milhões de pessoas, carecem de instalações básicas para lavar as mãos em casa.

O Rio Tinguá, na parte baixa, fora dos limites da Reserva Biológica do Tinguá – ICMBio, sofre com o excesso de banhistas no verão. É preciso conscientização da população para a preservação dos rios que nascem na Rebio do Tinguá. Pois a Água é um bem natural esgotável.

“Só existimos porque há água na Terra”.

 “Se a média de consumo global não diminuir, o cotidiano da população pode ser afetado drasticamente, inclusive no Brasil”.

Para ficar por dentro do assunto, o primeiro passo é compreender que, diferentemente do que ocorre com as florestas, a água é um recurso que tem quantidade fixa. Em teoria, dá para reflorestar toda a área desmatada da Amazônia, pois as árvores se reproduzem. Mas não é possível “fabricar” mais água. Segundo O Atlas da Água, dos especialistas norte-americanos Robin Clarke e Jannet King, a Terra dispõe de aproximadamente 1,39 bilhão de quilômetros cúbicos de água, e essa quantidade não vai mudar. Desse total, 97,2% dela está nos mares, é salgada e não pode ser aproveitada para consumo humano. Restam 2,8% de água doce, dos quais mais de dois terços ficam em geleiras, o que inviabiliza seu uso. No fim das contas, menos de 0,4% da água existente na Terra está disponível para atender às nossas necessidades. E a demanda não para de crescer.

Nas partes baixas, onde é a Zona de Amortecimento da Rebio do Tinguá – ICMBio e a APA do Alto Iguaçu – INEA, a Floresta ainda preservada abriga diversas espécies de animais e protege rios e córregos.

A ESCASSEZ HÍDRICA NA ÁFRICA É UM PROBLEMA ECONÔMICO

Robin Clarke e Jannet King fazem um alerta: “Não se engane: o abastecimento de água no mundo está em crise, e as coisas vêm piorando”.

A crise a que eles se referem pode se dividir em três tipos:

– Há escassez física quando os recursos hídricos não conseguem atender à demanda da população, o que ocorre em regiões áridas, como Kuwait, Emirados Árabes e Israel, ou em ilhas como a Bahamas.

– E existe a escassez econômica que assola, por exemplo, o Nordeste brasileiro e o Continente Africano.

– Também ainda regiões ou países que vivem sob o risco de crises de abastecimento e de qualidade das águas pelo uso exagerado do recurso. Austrália, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos e Japão sofrem com isso. A recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU) é que o consumo médio seja de 50 litros diários por habitante. Há países em que esse índice não passa de 5 litros. Já nas regiões mais desenvolvidas, uma pessoa usa em média 400 litros por dia.

A crise pode ser explicada por vários motivos: desmatamento, ocupação de bacias hidrográficas, poluição de rios, represas e lagos, crescimento populacional, urbanização acelerada e o uso intensivo das águas superficiais e subterrâneas na agricultura e na indústria. “Especialmente nos últimos 100 anos, o impacto da exploração humana dos recursos hídricos aumentou muito e trouxe consequências desastrosas”, comenta Tundisi. De fato, segundo a Unesco, de 1900 a 2025, o total anual de consumo de água no mundo terá aumentado quase dez vezes.


O BRASIL TEM UM BOM VOLUME DE ÁGUA, MAS USA MAL O RECURSO

O Brasil detém entre 12 e 16% da água doce da superfície terrestre. O país possui bons índices de chuva, o Amazonas é o rio de maior volume e nosso território ainda abriga o aquífero Guarani, o maior do mundo. Um aquífero é um reservatório subterrâneo, aonde a água das chuvas chega por infiltrações no solo arenoso. O Guarani se estende por 1,2 milhão de quilômetros quadrados e abrange oito estados brasileiros, além de áreas da Argentina, do Paraguai e do Uruguai. Essa água toda pode ser aproveitada com a construção de poços artesianos, o que já ocorre em vários locais.

Se há recursos, por que os especialistas alertam que a situação é preocupante? “Essa abundância deve ser vista com reserva, pois a distribuição é irregular”, diz Pedro Jacobi, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e Coordenador do Projeto Alfa, da Comunidade Européia sobre Governança da Água na América Latina e Europa.

“No Brasil, há muito desperdício, a distribuição não combina com as necessidades da população e a poluição é um grande problema”, resume Tundisi. “A bacia do Tietê, por exemplo, está interligada com a bacia do Prata e a poluição do rio Tietê já chegou até lá. O país tem de se preparar para uma mudança na maneira com que lida com a água. Em vez de despoluir, é necessário pensar em não poluir. Isso é mais viável até economicamente, pois o rio saudável rende dividendos, além de a despoluição custar caro”, diz Tundisi. A poluição das águas nacionais ainda é agravada pela falta de saneamento básico, que faz com que mais de 20% dos lares brasileiros lancem seu esgoto em córregos, rios e represas. Além disso, o desperdício não ocorre apenas pelo consumo da população. Calcula-se que mais de 30% da água encanada no Brasil seja perdida em vazamentos.


ABASTECIMENTO DE ÁGUA DE BILHÕES DE PESSOSAS EM RISCO

A disponibilidade de água nas montanhas está ameaçada pelas mudanças climáticas e pela crescente demanda. Um quarto da população do mundo depende desses sistemas de água.

As fontes de água das montanhas estão em risco, em muitos casos críticos, devido às ameaças das mudanças climáticas, aumento da população e má administração dos recursos hídricos, segundo os cientistas.

Mais de 30 cientistas em todo o mundo avaliaram os 78 sistemas de água baseados em geleiras em todo o planeta e, pela primeira vez, os classificaram em ordem de importância para as comunidades que vivem nas planícies próximas, bem como sua vulnerabilidade a futuras mudanças ambientais e socioeconômicas.

Esses sistemas, conhecidos como torres de água nas montanhas, armazenam e transportam água através de geleiras, blocos de neve, lagos e córregos, fornecendo recursos hídricos inestimáveis para 1,9 bilhão de pessoas – aproximadamente um quarto da população mundial.


SISTEMAS MAIS VULNERÁVEIS

A pesquisa, publicada na revista Nature, descobriu que o sistema de montanhas mais utilizado pelas pessoas para a água é a torre de água Indus na Ásia. É constituído por áreas da cordilheira do Himalaia e abrange partes do Afeganistão, China, Índia e Paquistão.

Outras torres de água vulneráveis identificadas pelos cientistas incluem os Andes do sul no Chile e Argentina, as Montanhas Rochosas nos EUA e Canadá e os Alpes Europeus.

Um dos cientistas que contribuíram para o estudo, Dr. Tobias Bolch, da Escola de Geografia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade de St. Andrews, disse: “A perda projetada de gelo e neve e o aumento da necessidade de água tornam bacias densamente povoadas, localizadas em regiões áridas, como a Bacia do Indus, no sul da Ásia ou a Bacia Amu Darya, na Ásia Central, altamente vulneráveis no futuro”.

Jonathan Baillie, vice-presidente executivo e cientista chefe da National Geographic Society, que apoiou a pesquisa, disse: “As montanhas são lugares icônicos e sagrados ao redor do mundo, mas o papel crítico que desempenham na manutenção da vida na Terra não é bem conhecido”.

Captação de Água da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgoto), em Rio D’Ouro dentro da Reserva Biológica do Tinguá – ICMBio. Além de histórica, esta captação é muita importante para o abastecimento a população da Baixada Fluminense e parte da Cidade do Rio de Janeiro.

PRESERVAÇÃO DAS FLORESTAS NATIVAS É NECESSÁRIA PARA GARANTIR ÁGUA DOCE

Um estudo demonstrou que as florestas retornaram 37% dos 2300mm de chuva que caiu em 2013 na Amazônia Central. A transpiração das plantas foi responsável por lançar cerca de 850mm da água da chuva para a atmosfera. As árvores mais altas da floresta tiveram um papel preponderante, aquelas que emergem nas copas, atingindo 30m de altura ou mais, muitas vezes conhecidas como “rainhas da floresta”. Estes tipos de árvore foram responsáveis por 70% do fluxo de água transpirado, o que correspondeu a pouco mais de um quinto da chuva anual que voltou para a atmosfera. 

As grandes árvores são verdadeiras “bombas de água” que puxam a água desde as camadas mais profundas do solo e a transportam até a atmosfera. Acontece que as secas afetam justamente o mecanismo de transporte de água ao longo da planta, especialmente das árvores maiores. Isto foi demonstrado em um experimento, na região de Caxiuanã, na Amazônia Oriental, no qual uma área de floresta foi coberta há mais de uma década para acompanhar os efeitos da falta de água sobre a floresta. 

Os impactos das florestas sobre as chuvas vão muito além da esfera local. As chuvas em grande parte da América do Sul dependem do fluxo de umidade que atravessa a Bacia Amazônica, saindo do Oceano Atlântico até os Andes, voltando em direção do sul. Um estudo recente avaliou, por meio de modelos, os impactos dos desmatamentos sobre esse fluxo de umidade. Concluiu-se que uma redução de 30 a 50% nas florestas seria capaz de causar redução de 40% das chuvas sobre as áreas de florestas remanescentes.

O Rio Boa Esperança, dentro da Reserva Biológica do Tinguá – ICMBio, correndo tranquilo nas partes baixas da Reserva.

O mais preocupante é que os efeitos das secas não vêm sozinhos, eles são ampliados e retroalimentados pelas queimadas, exploração predatória de madeira e fragmentação das florestas. Trata-se da “espiral da destruição” mencionado acima. Então, a questão é que todos estes distúrbios se somam para exercer um papel, proporcionalmente em termos de área, tão devastador quanto o desmatamento para a biodiversidade das florestas, assim como um impacto considerável sobre os grandes ciclos biogeoquímicos, como é o caso da água.

Tomadas em conjunto, todas as evidências científicas aqui apresentadas convergem para a imensa responsabilidade que temos em cuidar das florestas, dos seres que a habitam e em zelar pelas fontes de água. A responsabilidade é imensa para os habitantes da Amazônia, em particular, consideradas as riquezas e singularidades existentes nessa região sob nosso domínio.

Há quem pondere que as florestas da Amazônia já foram manejadas pelas civilizações indígenas antigas. As evidências para tal consistem no rastro da distribuição atual de plantas potencialmente domesticadas nestas florestas, como a pupunha e o açaí. Entretanto, essas evidências não podem ser usadas como justificativa para o uso indiscriminado das florestas. Todos os efeitos combinados de secas, distúrbios e desmatamentos atualmente, além do ritmo de devastação acelerado e das estratégias de manejo da sociedade moderna, certamente têm um potencial infinitas vezes mais devastador hoje em comparação ao passado.

A Agricultura e a Pecuária necessitam das chuvas, portanto, das Florestas, para se manterem produtivas e viáveis; a produção de madeira pressupõe florestas resilientes, ou seja, capazes de crescer e se sustentar. Assim, cuidar das florestas torna-se uma prioridade de todos, em particular daqueles que praticam manejo florestal ou que tiram seu sustento da terra.

A ciência tem um papel fundamental em informar a tomada de decisão, especificamente sobre os custos e benefícios das ações para a sociedade. As pesquisas têm avançado rapidamente e vêm informando sobre a urgência necessária em adotar técnicas de manejo com mínimo impacto, boas práticas agropecuárias e sobretudo garantir a conservação das florestas e das águas, em nome do bem-estar coletivo presente e futuro. Esse deve ser um pacto renovado entre todos nós a cada dia, e em especial no dia mundial da água e das florestas.


Foto de Capa: Yuri Borba – Parque Estadual do Mendanha – INEA

Redação / Pesquisa / Estudo: Yuri Borba

FONTES:

https://news.un.org/pt/tags/decada-internacional-para-acao-agua-para-o-desenvolvimento-sustentavel-2018-2028-0

https://www.eosconsultores.com.br/agua-potavel-escassez-iminente/

https://www.ana.gov.br/noticias-antigas/o-risco-de-escassez-de-a-gua-doce.2019-03-15.4724785357

https://wribrasil.org.br/pt/blog/2019/08/ranking-mostra-onde-ha-maior-risco-de-faltar-agua-no-brasil-e-no-mundo

https://www.ana.gov.br/noticias-antigas/brasil-tem-40-milhaues-sem-acesso-a-a-gua.2019-03-14.4546006521

https://www.eosconsultores.com.br/consumo-e-desperdicio-de-agua/

https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/crise-da-agua-doce

https://novaescola.org.br/conteudo/1142/a-agua-e-um-recurso-natural-esgotavel

https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/21383265/artigo—-a-inseparavel-relacao-entre-florestas-e-agua-na-amazonia



Uma das várias quedas e poços do Rio Guandu do Sapé, no Parque Estadual do Mendanha – INEA. No verão diversos banhistas lotam as quedas sem conhecer a importância deste rio. Além disso, 99% desconhecem que existe uma captação de água da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Rio de Janeiro) e que através de uma adutora leva água para a ETA Guandu.

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